Votou pela 1.ª vez em Netanyahu e tem "dois medos". Quais?
Uma apoiante do primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, ainda não decidiu se ele deve ganhar ou perder nas legislativas hoje em Israel e tem medo de qualquer cenário, logo no dia em que lhe deu o voto pela primeira vez.
Em contagem decrescente para o fim de uma das votações mais incertas de sempre, mas que trazem já um substancial aumento da participação eleitoral, Meirav Moran vai distribuindo material de campanha do partido conservador Likud, junto de uma assembleia de voto no centro da cidade.
Ao mesmo tempo, confessa ter "muito medo" de que Netanyahu seja desalojado do poder, mas também do oposto e que a sua vitória traga represálias da oposição.
Entre "os dois medos", esta antiga jornalista de um diário progressista e que cresceu num ambiente de esquerda associado aos kibutzim, diz ter transitado ao longo dos últimos anos para a direita, até se fixar definitivamente neste espaço político após os ataques do grupo islamita Hamas, em 07 de outubro de 2023.
Antes disso, recorda os grandes protestos nacionais que se seguiram à vitória do Likud há quatro anos, que afirma terem trazido memórias de infância de uma fogueira em 1977 no seu kibutz nas imediações de Telavive, para destruir material de campanha do partido, "como se fosse um ritual vudu".
Quase cinco décadas depois, o chefe do Governo e do mesmo Likud procurou promover uma polémica reforma judicial no início do atual mandato, gerando manifestações prolongadas e em grande escala por todo o país contra uma alegada tentativa de manipulação da justiça.
"Foi terrível. Os opositores chamavam-lhe 'revolução' e mal conseguia sair de casa. A seguir, veio o 07 de outubro e 'saí do armário'", relata a israelita de 58 anos, junto da escola Gretz, onde oferece autocolantes e panfletos azuis com o rosto do líder israelita, depois de hoje lhe ter entregado o seu voto pela primeira vez.
Agora, receia que a sua escolha possa contribuir para "cenas de violência e incêndios como se vê na Europa", caso a oposição perca estas legislativas, depois de sentir que o poder estava tão perto. Sobretudo em Telavive, que há quatro anos votou no Yesh Atid (há um Futuro), do centrista e ex-primeiro-ministro Yair Lapid, agora coligado com o também antigo chefe do governo Naftali Bennett, na aliança Juntos.
As sondagens apontam para uma ligeira vantagem do partido Yashar!, liderado pelo ex-chefe das forças armadas Gadi Eisenkot, cujos apoiantes montaram várias bancas mesmo ao lado da recém-ativista do Likud.
As pesquisas também indicam que, em qualquer um dos lados, nem Netanyahu, nem Eisenkot conseguem o "número mágico" de 61 lugares para controlar o parlamento, nem sequer através das alianças das forças pró-governamentais ou do chamado bloco de oposição, cujos restantes partidos se encontram igualmente em força à porta daquela escola primária.
Entre um ambiente caótico e uma cacofonia de discursos dos dois principais candidatos reproduzidos em alto volume por colunas de som, Meirav Moran também vai distribuindo amendoins, em alusão a uma dupla controvérsia de natureza racista envolvendo o tratamento de "babuíno" tanto a membros do Likud como do Yashar!.
A curta distância das eleições, os dois episódios tornaram-se reveladores da profunda polarização na sociedade israelita e a agressividade associada à campanha, que teve hoje continuidade no dia eleitoral.
Nos momentos finais da votação, o Likud procurou manter as urnas abertas depois da hora prevista, às 22:00 locais (menos duas em Lisboa), pedido recusado pela Comissão Eleitoral, depois de ter levantado suspeições sobre a votação em regiões associadas ao voto da minoria árabe.
Em reação, um dos seus grupos políticos árabes, a Lista Conjunta, respondeu que sabe como mandar o primeiro-ministro "para casa" e o Yashar! sugeriu que Netanyahu já está a preparar terreno para a derrota.
A Lista Conjunta e a outra formação de base árabe, o Ra'am, não estão alinhados nem com o bloco que apoia o Governo, nem com o da oposição, mas podem funcionar com fiel da balança pós-eleitoral, caso se confirme o impasse para a formação de um executivo sugerido pelas sondagens.
A "oportunidade para ganhar" proposta num cartaz que junta Netanyahu e o Presidente norte-americano, Donald Trump - numa referência direta às várias frentes de conflito de Israel no Médio Oriente e àquela que partilha com Washington contra o Irão - é rejeitada por um assumido concorrente da sua vizinha do Likud, Guy Globerman, que também montou a sua banca na escola Gretz.
"Estamos aqui com o Gadi [Eisenkot] e não com o Bibi [alcunha do primeiro-ministro] porque, nos últimos quatro anos, o Governo levou este país à ruína em todos os aspetos e precisamos de uma liderança que trabalhe para o povo e para o país, sem corrupção e sem privilégios para as famílias e amigos próximos", proclama, em alternativa, o apoiante do Yashar!
Acompanhado pelos três filhos, este empresário de 38 anos de uma 'start-up', antevê "um dia de mudança" a partir do movimento frenético de partidas e chegadas nesta assembleia de voto, e que encontra eco numa participação de 74% até às 21:00 locais, muito acima do nível de 2022.
"As pessoas compreendem que temos de mudar a situação com os nossos votos, através do sistema democrático, e gritar 'já chega, 'basta desta loucura'. Precisamos de um novo governo que una e trabalhe para o povo e de uma nova visão para Israel", defende Globerman.
Levando a filha de 04 anos ao colo, outro Guy, 38, acaba de votar "nas melhores eleições de sempre", que trazem "um grande impulso de mudança" e que considera como inédito desde que atingiu a idade para votar.
"Nunca me senti assim. A afluência às urnas é incrível", descreve o gestor, sem revelar a sua escolha política, mas sinalizando que não passa por Netanyahu: "Precisamos de uma nova liderança que assuma a responsabilidade".
Cada eleitor a sua causa e a de Gal, 32 anos, é a de "um país em paz", depois de três anos em guerra permanente, e também a luta pelos direitos LGBT, a promover por um governo que "traga sangue novo", porque sente que o atual já não o representa, amplificando a palavra "mudança" que corre de boca em boca neste ponto de votação de Telavive
"Esta é, sem dúvida, a nossa última oportunidade. Netanyahu já começou, há quatro anos, a destruir o país e vai continuar a fazê-lo se lhe dermos essa hipótese", avalia por seu lado Irit, apoiante da coligação de centro-esquerda Democratas, uma das quatro formações que constituem o bloco da mudança.
Em concreto, a advogada de 53 anos aponta os processos de corrupção do primeiro-ministro e o seu esforço para "continuar no poder enquanto evita ser julgado e condenado".
Mas também menciona o escândalo de conselheiros de Netanyahu alegadamente subornados para promover interesses do Qatar, país financiador do Hamas, e ainda a comissão de inquérito ao 07 de outubro, até agora recusada pelo primeiro-ministro, e exigida por cerca de cem mil pessoas que a organização estima terem participado num megaprotesto no passado sábado.
"Netanyahu está a fugir às suas responsabilidades, está a dividir o país e a incitar a hostilidade contra qualquer pessoa que não seja ele próprio. Ele está a destruir a nossa sociedade", alerta a militante dos Democratas.
Esta coligação liderada por Yair Golan, que tal como Eisenkot é general na reserva, tem forte implantação em Telavive. Durante o dia eleitoral, muitos dos seus apoiantes preencheram praças e jardins da cidade e circularam de bicicleta com as suas 't-shirt' azuis claras, em promoção do seu candidato com música e apelos ao voto, cruzando-se com pessoas de outros partidos que faziam o mesmo.
No final, todos assumem a impossibilidade de um partido governar sozinho e a inevitabilidade de alianças pós-eleitorais, em caso de vitória.
No caso do bloco da oposição, este diálogo forçado, já assumido em conversações anteriores à eleição, acaba por fazer com que um voto num seja um voto em todos e numa campanha comum, à medida que o ambiente festivo em dia feriado em Israel vai dando lugar à ansiedade pelos primeiros resultados.
Candidatos israelitas aproveitam reta final para pedir votosOs candidatos israelitas aproveitam as últimas horas da abertura das urnas para apelar ao voto nas redes sociais e nas ruas, com o primeiro-ministro Netanyahu a recorrer sobretudo às redes e Eisenkot a percorrer o país.
Lusa | 19:18 - 27/10/2026Conteúdo importado automaticamente via RSS de Minuto.
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